Quando pensamos em melhorar nosso rendimento, costumamos focar no treinamento, na alimentação, no descanso ou na hidratação. No entanto, existe um protagonista que até poucos anos atrás passava despercebido e que hoje está atraindo a atenção de pesquisadores e atletas: o microbioma intestinal.
Embora não o vejamos, em nosso intestino vivem bilhões de microorganismos que participam de processos fundamentais para o organismo. Longe de serem meros acompanhantes, eles ajudam a digerir alimentos, produzir compostos benéficos, fortalecer o sistema imunológico e até mesmo influenciar na recuperação após o exercício.
A ciência começa a demonstrar que cuidar desta comunidade de microorganismos pode ser mais uma peça do quebra-cabeça do rendimento esportivo.
O que é exatamente o microbioma?
O microbioma intestinal é o conjunto de bactérias e outros microorganismos que habitam de forma natural o nosso sistema digestivo, além dos genes e dos metabólitos produzidos por estes microorganismos. Quando existe um bom equilíbrio entre eles, contribuem para o funcionamento normal do organismo e ajudam a manter uma boa saúde.
Sua composição não é fixa. Ela muda constantemente em resposta a fatores como a alimentação, o estresse, o sono, alguns medicamentos, as doenças e até mesmo as viagens. Em outras palavras, o microbioma se adapta ao estilo de vida de cada pessoa, e cada pessoa tem o seu microbioma específico.
Qual a relação com o esporte?
A atividade física costuma beneficiar o microbioma. De fato, diversos estudos encontraram que pessoas fisicamente ativas apresentam uma maior diversidade de bactérias benéficas do que pessoas sedentárias.
Mas existe uma nuance importante: mais exercício nem sempre significa maiores benefícios. Quando o treinamento atinge níveis muito exigentes — como ocorre em maratonas, ultramaratonas, triatlos ou temporadas intensas de competição — o organismo também experimenta um maior estresse fisiológico.
Durante esforços prolongados, por exemplo, parte do fluxo sanguíneo é direcionada para os músculos para satisfazer a demanda de oxigênio, reduzindo temporariamente a irrigação do intestino. Isso pode afetar a barreira intestinal e favorecer desconfortos digestivos e inflamações.
Não é coincidência que muitos corredores de longas distâncias já tenham experimentado alguma vez náuseas, cólicas, diarreia ou mal-estar estomacal durante uma competição. Em estudos realizados com ultramaratonistas, praticamente todos os participantes relataram algum sintoma gastrointestinal, e uma parte importante daqueles que abandonaram a prova atribuiu sua desistência precisamente a esses problemas.
Um intestino saudável também ajuda na recuperação
O impacto do microbioma vai muito além da digestão. As bactérias intestinais produzem substâncias conhecidas como ácidos graxos de cadeia curta, entre elas o butirato, o acetato e o propionato. Estes compostos participam de diferentes funções do organismo, como o controle da inflamação, o metabolismo energético e a manutenção da saúde intestinal.
Para um atleta, isso é especialmente interessante, já que uma menor inflamação e uma melhor saúde intestinal podem favorecer uma recuperação mais eficiente entre as sessões de treinamento.
A principal matéria-prima para produzir estes compostos é a fibra solúvel, presente em frutas, verduras, legumes e cereais integrais, o que reforça a importância de uma alimentação variada e rica em alimentos de origem vegetal.
Pode influenciar no rendimento?
É uma das perguntas que mais gera interesse atualmente.
Embora ainda haja muito a ser pesquisado, alguns estudos sugerem que determinadas bactérias poderiam estar relacionadas a aspectos como a resistência, o aproveitamento de nutrientes e até mesmo a disponibilidade de aminoácidos necessários para o desenvolvimento muscular.
Um dos casos é o de uma bactéria chamada Veillonella atypica. Os pesquisadores observaram que ela aumentava em corredores de maratona após competirem e levantaram a hipótese de que ela poderia ajudar o organismo a utilizar melhor o lactato produzido durante o exercício intenso.
Estes resultados são promissores, embora ainda não sejam suficientes para afirmar que uma bactéria, por si só, possa melhorar o rendimento esportivo. A evidência continua crescendo e ainda restam muitas perguntas a serem respondidas.
O microbioma muda constantemente
Uma das características mais interessantes do microbioma é a sua capacidade de se modificar rapidamente.
Mudanças importantes na alimentação podem alterar sua composição em questão de dias. O mesmo ocorre com viagens frequentes, mudanças de fuso horário, estresse competitivo, uso de antibióticos ou de alguns anti-inflamatórios. Para um atleta profissional, com um ritmo de treinamento e competição intenso e modificações constantes na carga de treino, isso significa que o microbioma está submetido a desafios permanentes.
Inclusive, pessoas que começaram a treinar para uma maratona ou um triatlo mostraram mudanças importantes na diversidade do seu microbioma à medida que sua preparação avançava.
Vale a pena monitorar o microbioma?
Cada vez existem mais exames que permitem conhecer a composição do microbioma intestinal. No entanto, os especialistas concordam que uma única medição oferece informação limitada. O microbioma muda com o tempo, por isso observar sua evolução pode trazer dados muito mais úteis do que obter apenas uma "fotografia" isolada.
Embora estas ferramentas ainda estejam evoluindo e ainda não permitam fazer recomendações completamente personalizadas para todos os atletas, elas representam um campo com enorme potencial para a nutrição e a medicina esportiva do futuro.
Recomendações para um microbioma saudável
Embora a pesquisa continue avançando, já existem hábitos que favorecem um microbioma saudável e que, além disso, podem beneficiar o rendimento esportivo:
- Consumir diariamente alimentos ricos em fibras, como frutas, verduras, legumes e cereais integrais.
- Manter uma alimentação variada em vez de muito restritiva.
- Dormir o suficiente e controlar o estresse.
- Evitar o uso desnecessário de antibióticos e anti-inflamatórios, sempre seguindo indicação médica.
- Considerar o uso de probióticos apenas quando houver uma recomendação profissional e um objetivo específico.
O microbioma intestinal desponta como um dos fatores que poderiam fazer a diferença na saúde e no rendimento dos atletas.
Ele não substitui um bom treinamento, uma alimentação adequada nem o descanso, mas pode, sim, se tornar um aliado que influencia em aspectos tão importantes como a recuperação, a função imunológica e a saúde digestiva.
Ainda há muito a ser descoberto, mas a evidência aponta em uma direção clara: cuidar do intestino também pode ser uma forma de cuidar do rendimento.